Contos de Taxista

Cega e surda
Um velhinha fez sinal para meu táxi e eu parei. Ela estava acompanhada de outra senhora, tão velha quanto ela. Beiravam, sei lá, uma centena de anos. Cada uma!
Um das idosas pediu para embarcar na frente. Enquanto esta embarcava, a outra lhe orientava, ajudava a encontrar o banco. A ajuda não era bem-vinda, minha colega de banco dianteiro reclamava que a outra lhe tratava como uma inútil. Mas a outra não lhe dava ouvidos: “cuidado com a cabeça”.
Depois da dificuldade em colocar o cinto, entendi que a velhinha da frente não enxergava quase nada, mas tinha dificuldade em admitir esta limitação, por isso não aceitava muito bem que a ajudassem a fazer as coisas. Tudo bem. Vencido o transtorno com o cinto, partimos.
Quando entrei na rua Santana, a velhinha do banco de trás protestou. Eu expliquei que estava seguindo a orientação da senhora da frente, que tinha mandado entrar ali. A outra, aos berros, como se o banco traseiro ficasse muito distante, explicou que tínhamos que seguir reto. Criou-se a confusão:
-- Cremilda, por que mandaste entrar na Santana? Temos que ir no INSS primeiro, pegar as receitas! Os teus remédios pras juntas, Cremilda!
Parei o táxi enquanto as duas discutiam. Uma queria ir pra casa, a outra insistia em ir pegar as tais receitas. Quando finalmente a das receitas ganhou, perguntei onde ficava o INSS. Minha colega quase cega mandou perguntar para a idosa de trás. Mas a passageira do banco traseiro seguia discutindo, não ligava para minha pergunta. Foi quando a outra me avisou.
-- Tem que gritar. Ela é surda.
O resto da corrida foi aos berros com a idosa do banco traseiro, que era quem tinha o endereço do posto do INSS, e que tinha dificuldade em aceitar a deficiência auditiva - ficava braba quando via que eu estava gritando. A colega da frente, que era quase cega mas bem-humorada, apenas achava graça.
No final, quando agradeci a gorjeta, a passageira tascou:
-- Não precisa gritar, a surda é a outra.
***************************************************************************
Falta de ar!
O homem estava em meio a uma crise violenta de asma. Em uma rua de pouco movimento, tentava em vão conseguir um táxi. Sentiu suas forças acabando, as pernas amolecendo. Acabou sentado no cordão da calçada. Agora mesmo é que nenhum táxi vai parar para mim, pensou. Mas, como por milagre, um taxista atendeu aos seus sinais.
Com o que lhe restava de forças, o homem se arrastou para dentro do táxi. Tentou falar que precisava ir para o Pronto-socorro, mas nem as palavras conseguia pronunciar. O taxista, por sorte, entendeu. Pronto-socorro. Finalmente, a caminho do hospital.
Foi quando o taxista resolveu “ajudar”.
O taxista perguntou ao passageiro se ele queria ficar bom daquela asma horrorosa. Se queria se curar definitivamente. Disse que tinha a solução para aquilo, disse que conhecia um lugar onde acabariam com o seu problema de saúde. O homem não conseguia falar, não conseguia mais nem pensar direito, sinalizou que o taxista o levasse logo aonde quer que fosse.
Quando o taxista estacionou em frente ao prédio enorme, com uma enorme cruz na fachada, o passageiro não entendeu direito. Uma igreja! O taxista explicou que era hora do culto dos enfermos - de dentro do prédio ouvia-se os gritos dos fieis. O homem, ateu, achou que aquilo podia ser um sinal divino, talvez fosse hora de acreditar em Deus. Pagou a corrida e desceu.
Depois de ficar uns vinte minutos sentado no último banco do templo, tendo espasmos, as vias aéreas fechando, as extremidades ficando roxas sem que ninguém desse bola para ele, o homem resolveu voltar para a rua. Voltou a procurar um táxi.
O outro taxista, vendo que o passageiro estava morrendo, levou-o voando para o Hospital de Pronto Socorro, sequer cobrou a corrida, mais alguns minutos e não daria mais tempo.
Agora toda vez que embarca em um táxi, o homem confere se o taxista ao volante não é o crente que tentou matá-lo e ainda cobrou por isso. Ele acredita que um dia encontrará o excomungado.

Cega e surda
Um velhinha fez sinal para meu táxi e eu parei. Ela estava acompanhada de outra senhora, tão velha quanto ela. Beiravam, sei lá, uma centena de anos. Cada uma!
Um das idosas pediu para embarcar na frente. Enquanto esta embarcava, a outra lhe orientava, ajudava a encontrar o banco. A ajuda não era bem-vinda, minha colega de banco dianteiro reclamava que a outra lhe tratava como uma inútil. Mas a outra não lhe dava ouvidos: “cuidado com a cabeça”.
Depois da dificuldade em colocar o cinto, entendi que a velhinha da frente não enxergava quase nada, mas tinha dificuldade em admitir esta limitação, por isso não aceitava muito bem que a ajudassem a fazer as coisas. Tudo bem. Vencido o transtorno com o cinto, partimos.
Quando entrei na rua Santana, a velhinha do banco de trás protestou. Eu expliquei que estava seguindo a orientação da senhora da frente, que tinha mandado entrar ali. A outra, aos berros, como se o banco traseiro ficasse muito distante, explicou que tínhamos que seguir reto. Criou-se a confusão:
-- Cremilda, por que mandaste entrar na Santana? Temos que ir no INSS primeiro, pegar as receitas! Os teus remédios pras juntas, Cremilda!
Parei o táxi enquanto as duas discutiam. Uma queria ir pra casa, a outra insistia em ir pegar as tais receitas. Quando finalmente a das receitas ganhou, perguntei onde ficava o INSS. Minha colega quase cega mandou perguntar para a idosa de trás. Mas a passageira do banco traseiro seguia discutindo, não ligava para minha pergunta. Foi quando a outra me avisou.
-- Tem que gritar. Ela é surda.
O resto da corrida foi aos berros com a idosa do banco traseiro, que era quem tinha o endereço do posto do INSS, e que tinha dificuldade em aceitar a deficiência auditiva - ficava braba quando via que eu estava gritando. A colega da frente, que era quase cega mas bem-humorada, apenas achava graça.
No final, quando agradeci a gorjeta, a passageira tascou:
-- Não precisa gritar, a surda é a outra.
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Falta de ar!
O homem estava em meio a uma crise violenta de asma. Em uma rua de pouco movimento, tentava em vão conseguir um táxi. Sentiu suas forças acabando, as pernas amolecendo. Acabou sentado no cordão da calçada. Agora mesmo é que nenhum táxi vai parar para mim, pensou. Mas, como por milagre, um taxista atendeu aos seus sinais.
Com o que lhe restava de forças, o homem se arrastou para dentro do táxi. Tentou falar que precisava ir para o Pronto-socorro, mas nem as palavras conseguia pronunciar. O taxista, por sorte, entendeu. Pronto-socorro. Finalmente, a caminho do hospital.
Foi quando o taxista resolveu “ajudar”.
O taxista perguntou ao passageiro se ele queria ficar bom daquela asma horrorosa. Se queria se curar definitivamente. Disse que tinha a solução para aquilo, disse que conhecia um lugar onde acabariam com o seu problema de saúde. O homem não conseguia falar, não conseguia mais nem pensar direito, sinalizou que o taxista o levasse logo aonde quer que fosse.
Quando o taxista estacionou em frente ao prédio enorme, com uma enorme cruz na fachada, o passageiro não entendeu direito. Uma igreja! O taxista explicou que era hora do culto dos enfermos - de dentro do prédio ouvia-se os gritos dos fieis. O homem, ateu, achou que aquilo podia ser um sinal divino, talvez fosse hora de acreditar em Deus. Pagou a corrida e desceu.
Depois de ficar uns vinte minutos sentado no último banco do templo, tendo espasmos, as vias aéreas fechando, as extremidades ficando roxas sem que ninguém desse bola para ele, o homem resolveu voltar para a rua. Voltou a procurar um táxi.
O outro taxista, vendo que o passageiro estava morrendo, levou-o voando para o Hospital de Pronto Socorro, sequer cobrou a corrida, mais alguns minutos e não daria mais tempo.
Agora toda vez que embarca em um táxi, o homem confere se o taxista ao volante não é o crente que tentou matá-lo e ainda cobrou por isso. Ele acredita que um dia encontrará o excomungado.

